Município de Grândola - Paços do Concelho

Direcção de Arte / Editorial / Print

O edifício dos Antigos Paços do Concelho do Século XVIII constitui um dos mais antigos e emblemáticos exemplares do património construído da vila de Grândola. Além do seu valor histórico e arquitectónico, possui uma carga simbólica, porquanto representa a autonomia municipal obtida em 22 de Outubro de 1544. Conceber uma publicação sobre este edifício surgiu como uma forma natural de preservar o património e salvaguardar a sua memória para o futuro.


O livro cruza investigação histórica com os resultados de trabalhos arqueológicos realizados durante a reabilitação do imóvel em 2021, reunindo pela primeira vez estas duas vertentes num único volume. Era objectivo do município de Grândola que o livro dignificasse a história do edifício e o rigor da investigação científica, mas que fosse acessível e apelativo para o público geral — não apenas para especialistas em património ou arqueologia. O projecto gráfico deveria servir de ponte entre o universo técnico da obra e um leitor curioso, sem simplificar nem intimidar.


Reconhecendo a importância do primeiro impacto, foi intenção declarada que a capa comunicasse simultaneamente o rigor documental da obra e a singularidade do processo arqueológico que lhe deu origem, posicionando a publicação como peça de referência institucional e patrimonial, sem recorrer a uma linguagem visual convencional de livro de história local.


A solução gráfica nasce directamente do universo da arqueologia de campo. A tipografia do título é construída a partir das réguas e escalas utilizadas no registo arqueológico, transformando instrumentos de medição científica em matéria expressiva. A grelha fina em vermelho-alaranjado que percorre toda a superfície do livro evoca o acto de perscrutar — o olhar metódico e atento da investigação arqueológica que procura vestígios sob camadas de tempo. Um cortante na capa deixa entrever fragmentos das palavras impressas no verso da sua própria badana, introduzindo o gesto da descoberta: tal como na escavação, o conteúdo não se revela de imediato, mas vai emergindo à medida que se explora o objecto. 


Na contracapa, uma ilustração linear do alçado do edifício dialoga com o texto descritivo, ancorando a publicação no objecto arquitectónico real. A paleta reduzida — vermelho-alaranjado sobre fundo cru — reforça a contenção e a elegância do projecto, ao mesmo tempo que lhe confere uma identidade visual imediatamente reconhecível. A impressão sobre papel de textura visível acentua a materialidade do objecto-livro, aproximando-o do universo táctil da construção e do território.


A coerência entre conceito gráfico do livro e conteúdo editorial — onde cada decisão formal nasce do tema — demonstra como o design pode ser não apenas invólucro, mas instrumento de leitura e interpretação do assunto que apresenta.

A solução gráfica nasce directamente do universo da arqueologia de campo. A tipografia do título é construída a partir das réguas e escalas utilizadas no registo arqueológico, transformando instrumentos de medição científica em matéria expressiva.

Uma tipografia única


Um livro que nasce da convergência entre história e arqueologia exigia um projecto tipográfico que não se limitasse a compor texto, mas que participasse activamente na comunicação do tema. Recorrer a um tipo de letra existente teria cumprido a função, mas não a ambição: era necessário construir uma linguagem visual que tornasse o universo da escavação presente em cada página, antes mesmo de se ler uma palavra.


Foi desenhado um alfabeto completo — letras, números e sinais de pontuação — cujos glifos são construídos a partir das réguas e escalas utilizadas no registo arqueológico. Cada caracter é composto por blocos geométricos que evocam simultaneamente a métrica rigorosa dos instrumentos de medição e a fragmentação própria dos vestígios encontrados numa escavação: formas que parecem completas à distância, mas que, vistas de perto, revelam intervalos, encaixes e detalhes internos — como se cada letra fosse ela própria um achado por interpretar.


O sistema tipográfico assenta sobre a grelha quadriculada que percorre toda a publicação, reforçando a relação com o levantamento de campo e garantindo a coerência entre capa e miolo. No interior, a tipografia é utilizada nas aberturas de capítulo, impressa em grande escala sobre páginas de fundo vermelho-alaranjado, onde os glifos brancos ganham uma presença monumental que marca o ritmo de leitura e confere identidade a cada secção do livro.

Um cortante na capa deixa entrever fragmentos das palavras impressas no verso da sua própria badana, introduzindo o gesto da descoberta: tal como na escavação, o conteúdo não se revela de imediato, mas vai emergindo à medida que se explora o objecto.